Transformação digital na logística: o verdadeiro desafio não está na tecnologia

A integração de sistemas, a gestão da mudança e a qualidade dos dados são determinantes para o futuro da cadeia de abastecimento.
A transformação digital na logística esteve sempre associada à automatização. Sem dúvida, essa visão ficou muito aquém. As empresas já não se limitam a incorporar novas ferramentas; o que realmente gera valor é a forma como essa informação é utilizada para que as operações façam sentido e se possam tomar melhores decisões.
No fórum Smart Supply Chain, organizado pela Generix, analisou-se como a cadeia de abastecimento está a evoluir e como a Inteligência Artificial participa nesta transformação. Raúl Sanz, nosso Iberia-México Contract Logistics Manager, partilhou algumas das chaves.
Dados sim, compreendê-los também
Atualmente, dispomos de uma grande quantidade de dados. A questão é: sabemos interpretá‑los corretamente? Sabemos transformá‑los em informação útil?
Em muitas organizações ainda existem aplicações que funcionam de forma independente. O armazém trabalha com um sistema, o transporte com outro e a área aduaneira com um diferente. Quando essa informação permanece isolada, torna-se muito mais difícil ter uma visão global da operação.
Precisamente por isso, a integração entre sistemas tornou-se um dos grandes objetivos da digitalização logística. Dispor de uma única fonte de informação facilita o acompanhamento da mercadoria, melhora a capacidade de reação e permite detetar incidências antes de afetarem o cliente.
Como operador 4PL, por que limitar-nos apenas ao armazém?
Esta foi a grande questão à qual respondeu Raúl Sanz:
“O WMS pode integrar a informação do forwarding, das alfândegas e do transporte final. Quando se conectam todos esses dados, obtém-se uma visão completa da cadeia de abastecimento e uma maior capacidade para tomar decisões”
A inteligência artificial precisa de ser construída com base numa boa fundação
A inteligência artificial ocupa cada vez mais espaço nas conversas sobre logística. Fala-se de previsão da procura, otimização de inventários ou planeamento automático de rotas. No entanto, nenhuma destas ferramentas pode oferecer resultados fiáveis se trabalhar com informação incompleta ou incorreta.
Os dados com que a organização trabalha são fiáveis?
Quando se consideram projetos de IA, a primeira pergunta deve ser: os dados da minha organização são fiáveis?
Raúl Sanz destacou esta ideia:
“O dado na logística deve ser verídico, único e rastreável. Se trabalharmos com informação incorreta e a incorporarmos em sistemas de inteligência artificial, as conclusões também serão erradas. Antes de falar de quantidade, devemos falar de qualidade do dado”
Esta reflexão mostra que a inteligência artificial otimiza processos e facilita decisões, mas não pode gerir a qualidade da informação.
Digitalizar também significa colocar as pessoas no centro
Sempre que se fala de transformação digital, dá-se mais destaque aos aspetos técnicos como software, automatização ou robótica. No entanto, as pessoas são muitas vezes deixadas para segundo plano, quando são elas que determinam se o projeto terá sucesso ou não.
Quando surge uma nova ferramenta ou funcionalidade, isso altera processos, rotinas e a forma de trabalhar. Por isso, é fundamental que as pessoas participem desde o início nestes processos, reduzindo o tempo de adoção.
Como consequência, a gestão da mudança continua a ser um dos grandes desafios de qualquer projeto de digitalização.
Nas palavras de Raúl Sanz:
“Um dos erros mais comuns é abordar projetos tecnológicos a partir de uma perspetiva exclusivamente técnica, sem envolver quem os vai utilizar no dia a dia”
Esta reflexão reforça a importância da escuta ativa, da comunicação do plano de mudança e do acompanhamento de todos os envolvidos na implementação, algo tão importante quanto escolher a tecnologia adequada.
Uma cadeia de abastecimento mais conectada começa pela integração de processos.
As interrupções no transporte, as mudanças regulatórias ou a incerteza geopolítica destacaram a importância de dispor de informação em tempo real. Quanto maior a visibilidade da cadeia de abastecimento, maior a capacidade das empresas para antecipar e reagir.
Neste cenário, integrar processos deixa de ser apenas uma melhoria tecnológica e passa a ser uma decisão estratégica. Ligar armazém, transporte, forwarding e alfândegas permite construir uma visão completa da operação e responder com maior agilidade a um ambiente em constante mudança.
As conclusões partilhadas no Smart Supply Chain Forum apontam precisamente nessa direção. Antes de avançar para projetos mais avançados de automatização ou inteligência artificial, muitas organizações ainda têm margem de melhoria em aspetos como a qualidade dos dados, a integração de sistemas e a revisão dos seus processos.
A transformação digital vai muito além da incorporação de tecnologia
A digitalização da logística não depende apenas das ferramentas utilizadas por uma empresa. Depende, sobretudo, de como se conecta a informação, da confiança nos dados e da capacidade das pessoas para se adaptarem a novas formas de trabalho.


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